Doação de órgãos: a vida sempre continua…

Da morte para a vida. Da tristeza da perda de um ente querido, para a esperança de que um pouco dele revive em outras pessoas.

 Cada vez mais, a população brasileira está consciente da importância da doação de órgãos. E os números de doações e transplantes não param de crescer. Um único doador de órgãos e tecidos pode beneficiar até dez pessoas que aguardam por um transplante de órgão ou tecido.

Atualmente, o Brasil registra números recordes e tem o melhor cenário dos últimos 20 anos. No ano passado, de acordo com dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), o país realizou 27 mil transplantes, 2 mil a mais que 2016. A expectativa é que esse número seja cada vez maior, principalmente pela qualificação das equipes médicas e pela informação de como o procedimento é feito.

O Paraná lidera o número de doações e transplantes no país, na frente de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, que aparecem em seguida. O Estado conquistou a posição no primeiro trimestre de 2018, com 50,2 doadores efetivos a cada milhão de habitantes. No mesmo período, o Estado ficou em primeiro lugar em transplantes de rim e terceiro em transplante de fígado.

Para o secretário de Saúde do Paraná, Antônio Carlos Nardi, o resultado evidencia a qualidade do trabalho desenvolvido no Estado em relação à doação de órgãos. “Além de um sistema de captação e transporte de órgãos organizados, contamos com excelentes profissionais como a equipe do Hospital Bom Jesus, em Toledo, na região oeste, capacitados a conversar com as famílias dos possíveis doadores com sensibilidade que o assunto merece”, disse.

Em agosto, o Hospital Bom Jesus de Toledo, foi homenageado pelo empenho da comissão de procura de órgão na sensibilização das famílias de possíveis doadores. A instituição teve 100% de resposta positiva na abordagem das famílias de possíveis doadores. No último mês de julho, todas as 13 abordagens feitas pela equipe resultaram no consentimento das famílias para a doação.

O empenho da comissão de procura de órgãos do Hospital Bom Jesus de Toledo na sensibilização das famílias de possíveis doadores foi reconhecido pela secretaria estadual da Saúde. (Crédito:Divulgação SESA/PR)

Segundo a enfermeira da Central de Transplantes do Paraná, Luana Heberte, a marca no Estado é histórica. “Os números são positivos e nunca atingimos esse recorde. O transplante mais frequente é o de rim e é o que mais tem fila de espera. Só neste ano, foram realizados 365 transplantes de rins e 187 de fígado”, afirma.

A Central de Transplantes do Paraná é responsável por todas as ações relacionadas a tecidos e transplantes no Estado. A sede fica em Curitiba, assim como uma organização que faz a seleção dos órgãos que estão disponíveis.

A recusa ainda é o principal desafio

Apesar dos números recordes, o Brasil ainda tem muito que evoluir. A fila de pacientes que esperam por um órgão é muito preocupante. São quase 40 mil pessoas, entre adultos e crianças, no aguardo. A maioria espera pelo transplante de rim ou córnea.

Só no Paraná, são 1.650 pacientes na angústia da espera por um órgão. “Não há estimativa de quanto tempo a pessoa vai ficar esperando. Depende muito da entrada do paciente na fila e da compatibilidade. Por exemplo, em 2010, o paciente esperava um ano para o transplante de córnea. Hoje, esse tempo caiu para cinco dias”, diz a enfermeira da Central de Transplantes.

A recusa para doar, por parte dos familiares, ainda é o principal desafio dos médicos. Após a morte, a equipe hospitalar informa a possibilidade de doação, e por lei, a decisão é exclusivamente feita por eles. 40% dos parentes de vítimas de pacientes com morte encefálica negam a possibilidade de doação.  “É preciso falar que o paciente pode ser doador de órgão, humanizar o caso. Para doar é necessário que aconteça uma morte encefálica, com uma lesão muito grave, como um acidente de trânsito ou AVC. Para isso, é realizado um diagnóstico que dá 100% de certeza da possibilidade de doar”, reforça Luana Heberte.

Anjos silenciosos e voos que salvam

O sucesso de uma doação de órgãos depende de vários fatores. A expectativa começa logo quando a família é comunicada de que o paciente que acaba de morrer é um doador apto. Depois vem a abordagem dos parentes sobre a importância em disponibilizar os órgãos. Quando a resposta é positiva, começa uma verdadeira corrida contra o tempo.

A partir desse momento, o órgão é retirado. Um paciente ou mais é selecionado para realizar o procedimento o mais rápido possível. Enquanto isso, os anjos silenciosos seguem agindo…

Há casos que a cirurgia é feita na mesma localidade da morte do doador, mas há muitos outros que há a necessidade de transporte para outra região. É neste caso que a agilidade tem que ser ainda maior.

Desde 2001, as companhias aéreas nacionais ajudam o Brasil a ter o maior sistema público de transplantes do mundo. Tudo isso só foi possível com a criação do programa “Asas do bem”, da Associação Brasileira das Empresas  Aéreas (ABEAR) com o Ministério da Saúde.

Só no ano passado, foram realizadas 9 mil viagens, com equipes médicas e órgãos em todo o país. Esse número varia a cada ano, já que depende muito da necessidade do órgão em determinada região.

Segundo o diretor de comunicação da Associação Brasileira de Empresas Aéreas (ABEAR), responsável pelo “Asas do Bem”, Adrian Alexandri, antes, o sistema era muito precário. O Ministério da Saúde ficava responsável pela distribuição. Atualmente, há um centro no Rio de Janeiro que cuida de toda a logística. “É um trabalho silencioso. Muita gente não sabe que a aeronave está levando um órgão. É um trabalho gratuito e humanitário”, conta Alexandri.

O avião que transporta o órgão tem total prioridade, tudo para garantir o sucesso do procedimento. “Quando os médicos, enfermeiros ou técnicos não vão, a caixa com o órgão vai na cabine, com o piloto. Cada órgão tem um tempo de sobrevivência e o trajeto deve ser feito o mais rápido possível. O coração, por exemplo, tem em média, três ou quatro horas de sobrevivência”, afirma o diretor de comunicação do projeto.

A GOL Linhas Aéreas foi pioneira no transporte de órgãos no Brasil, tanto que desde o início de suas operações, há 17 anos, a companhia realiza a iniciativa de maneira voluntária e totalmente gratuita. De acordo com o diretor de relações institucionais da GOL, Claudio Borges, todo o processo é compartilhado com os funcionários e clientes. “Em todos os voos onde ocorrem o transporte de órgãos, o piloto da aeronave, em seu discurso de boas-vindas, anuncia a todos os passageiros que aquele voo está com um órgão a bordo. A ideia de incluirmos a informação no discurso do comandante surgiu como uma maneira de ampliarmos o conhecimento sobre o projeto, como também sensibilizarmos ainda mais pessoas para a importância da doação”, afirma.

A Azul também é parceira do projeto “Asas do Bem”. Segundo o coordenador de normas e procedimentos da empresa, Ernesto de Alcântara Velho Barreto, o empenho para que tudo dê certo é coletivo. “Uma vez um órgão chegou atrasado no aeroporto e a aeronave já estava no taxiamento para a pista de decolagem. O nosso pessoal de aeroporto chamou o comandante pelo telefone, o piloto, por sua vez, pediu autorização de parada na pista de taxi e abriu a porta. Enquanto isso, nossa equipe levou a caixa no carro, estacionou bem próximo, subiu no capô e passou o órgão ao comissário, garantindo assim que o transporte fosse realizado a tempo”, relembra o coordenador.

O “Asas do Bem” foi fundamental para a tragédia na boate Kiss, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul, em 2013. Na época, 242 pessoas e outras 680 ficaram feridas por causa do incêndio na casa noturna. Como não havia pele suficiente na região, para atender todas as vítimas, uma força-tarefa foi criada. O trabalho só foi possível com a agilidade das empresas participantes do programa, que fizeram o transporte do órgão. “É uma corrida contra o tempo. É preciso tirar o órgão, que não é um processo simples, transportar de carro ou moto até o aeroporto e depois até o hospital. É uma operação complexa, tanto de quem retira tanto para quem espera o órgão”, relata Adrian.

Por outro lado da espera

A insegurança ainda é a inimiga de quem espera por um transplante. A aproximação da morte é temida por quem precisa de um novo órgão para viver.

A paciente Eva da Conceição de Lima, de 53 anos, está há um ano na espera de um transplante de rim. “Já sabia que ia passar por isso. Descobri insuficiência renal há doze anos. Já fui ao hospital para ‘concorrer’ um rim por três vezes e não deu certo. Estou ansiosa e esperançosa. Tenho que acreditar que vai dar certo!”, afirma.

As histórias inspiradoras e de superação são fundamentais durante a espera. O publicitário Alexandre Barroso, de 59 anos, esteve muito perto da morte e chegou a dar como certo o fim da vida. Mas a persistência e ajuda de familiares fizeram com que ele superasse a situação e se tornasse um grande exemplo quando se trata de doação de órgãos.

Alexandre foi três vezes transplantado e um dos muitos beneficiados pelo projeto “Asas do Bem”. Ele fez transplante de fígado e rim, durante quatro anos de internação. “A espera é a certeza de um caminho de morte. Eu cheguei a ter 35 quilos e hoje tenho 80. É uma espera que você precisa reforçar outras esperanças, como a fé em Deus. Até quando parece um anjo doador. Fui beneficiado por três vezes e por isso sou muito abençoado mesmo”, agradece Alexandre.

O procedimento só é possível com o empenho de todas as pessoas envolvidas no processo. “O projeto ‘Asas do Bem’ é muito lindo. Fui beneficiado pelo projeto. É um sistema de inteligência. É atual e divisor de águas quando se fala em transplante. É a agilidade que salva muitas vidas”, elogia Alexandre.

Ele passou por 11 cirurgias e ficou 21 vezes em coma. “Falar em doação de órgãos é nunca falar de morte. Falar em doação é falar de vida, já que um órgão pode a salvar até dez vidas”, reforça o publicitário.

Alexandre Barroso é um sobrevivente. Atualmente, ele faz palestras para incentivar as doações de órgãos.

 

Com o problema de saúde, o publicitário se engajou ainda mais na importância de conscientizar outras pessoas sobre a necessidade de doar órgãos. Após recuperação, Alexandre Barroso percorre as cidades brasileiras com a “Jornada Asas do Bem”. A ideia é expor a sua história, mostrar os benefícios da doação de órgãos e também a importância do projeto que foi beneficiado. “Faço uma palestra de sensibilização, para tocar as pessoas. A gente chora e ri junto. É emotiva e leva essa consciência do despertar para doar órgãos”, finaliza.

A previsão é que o projeto passe ainda neste ano em Roraima, Acre, Belém, Londrina e João Pessoa.

Outras informações do projeto estão em www.abear.com.br/asasdobem/

Primeiro transplante de pulmão deve ser realizado nos próximos meses no Paraná

O Paraná é o quinto estado do país a ter um hospital credenciado para realizar o transplante de pulmão pelo Sistema Único de Saúde, o SUS.

O procedimento é inédito no Estado e deve ser realizado pelo Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, na região metropolitana de Curitiba. “A ideia é que até o fim deste ano ou começo de 2019 o Paraná realize o primeiro procedimento. Já recebemos os pacientes para fazer a avalição para receber esse pulmão. É uma experiência única. É um órgão que o paciente mais sofre durante a espera, já que a maioria deles está muito debilitado”, afirma o integrante da equipe de transplantes do Angelina Caron, médico Frederico Barth.

Os riscos de rejeição ou infecções bacterianas podem acontecer de três meses a um ano e meio após a cirurgia. No entanto, passado este tempo, o paciente pode ter uma boa qualidade de vida.

Os pulmões transplantados podem ser de um doador vivo ou falecido. O tempo para cirurgia do órgão é um dos mais curtos, ao lado do coração. “Temos quatro horas para que o pulmão seja retirado e reimplantado”, finaliza Barth.

Atualmente, esse tipo de transplante já é feito em Porto Alegre, São Paulo, Bahia e Ceará.

No ano passado, o Hospital Angelina Caron registrou o maior volume de transplantes de pâncreas no Brasil. Segundo a Associação Brasileira de Transplante de órgãos, foram feitos 1,78 transplantes de pâncreas por milhão de pessoas no estado, entre janeiro e dezembro de 2017. Em seguida, Santa Catarina tem 1,74 e São Paulo 1,21. A média nacional é 0,3.

O procedimento é indicado, principalmente, para pacientes diabéticos (diabéticos tipo 1, na maioria das vezes) que necessitem de transplante renal, ou que já tenham sido submetidos a esse transplante. A recuperação do transplante de pâncreas geralmente é lenta, e exige no mínimo três meses de cuidados.

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