Mais um golpe na saúde

O Diário  – Editorial

Mais um golpe na saúde

Ao reduzir o repasse mensal para as clínicas de nefrologia que prestam serviços, o Ministério da Saúde expõe, mais uma vez, a fragilidade das políticas públicas destinadas ao tratamento de uma doença crônica, com índices de diagnóstico em expansão no País e no mundo.

Uma pesquisa publicada no próprio site do Ministério da Saúde mostra que um em cada cinco homens e uma em cada quatro mulheres na faixa etária de 65 a 74 anos apresenta a doença renal crônica. A partir dos 75 anos, metade da população mundial irá apresentar a doença em algum de seus estágios. Estudos também indicam que 70% dos pacientes podem necessitar da hemodiálise.

A hemodiálise prolonga e melhora a qualidade de vida do paciente. As sessões desse tratamento são feitas, em geral, de duas a três por semana para estabilizar as funções vitais por causa do comprometimento dos rins.

Em Mogi das Cruzes e em Suzano, os dois institutos de Nefrologia atendem 554 pessoas. Além desse grupo, cerca de 400 moradores da Região estão realizando nesse momento o tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em clínicas localizadas principalmente na Capital.

Ou seja, mesmo sem a redução do repasse dos recursos, a atual política de atendimento à doença renal crônica não está conseguindo atender toda a demanda nas cidades de origem dos pacientes, obrigados a enfrentar uma desconfortável e imprevisível viagem em busca do tratamento.

Quem precisa ir com frequência a São Paulo tem a vida suspensa pelas condições do trânsito: chuva, protestos, acidentes, tudo influência no tempo gasto com a viagem. Imagine a vida de quem vai a São Paulo submeter-se a uma sessão de hemodiálise, que traz desconfortos como tontura, enjoos, indisposição?

Com a redução de 11% dos recursos pagos a institutos conveniados ao SUS, o governo federal mina as chances dos serviços manterem o quadro atual de pacientes atendidos. Pelo SUS, o valor do procedimento é abaixo do praticado pelo mercado.

O último reajuste nos valores pagos pela sessão de hemodiálise foi de 23,4%, enquanto a média de inflação no período foi de 53,29%. Trata-se da mesma matemática que penaliza as santas casas que resistentemente ainda estão abertas.

A decisão de reduzir os repasses impacta nas clínicas e na qualidade de vida dos pacientes, obrigados a buscar tratamento longe de casa. É mais um duro golpe na saúde pública que, se não encontrar reação popular, será sacramentada no embalo de outras decisões tomadas em gabinetes bem refrigerados por quem, quando adoece, tem bons planos de saúde ou descaradamente fura a fila do SUS.